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Julgamento

 
 
 

 

 

Julgar o Próximo

 

Cada um
julga com os elementos que possui. Quanto mais somos ignorantes, menos elementos
possuímos, e quanto menos elementos possuímos, mais rápidas e absolutas são
nossas conclusões.

Ao
contrário, quem possui mais conhecimento e, com isso, mais elementos para
julgar, não chega a conclusões simplistas, rápidas e absolutas. Logo, quem mais
se aproxima da verdade é quem julga lentamente, sem absolutismo, mas com
profundidade.

Então,
quem julga, lançando seu julgamento sobre os outros, em última análise julga a
si mesmo, e com seu julgamento, se revela. Pelo fato: de ele não poder julgar
senão conforme seu tipo de pensamento e natureza, com o seu julgamento são
descobertos seu pensamento e sua natureza.

A
melhor maneira de se chegar a conhecer uma pessoa é a de observar os seus
julgamentos a respeito dos outros. Quando alguém cai na ilusão de supor que,
julgando os outros, está assim pondo-os a descoberto e colocando-se acima deles,
na realidade, apenas se está submetendo a julgamento, descobrindo-se e
mostrando a todos seus próprios defeitos.

(P.
Ubaldi – A Lei de Deus)

Os Garis e os Outros

TESE DE MESTRADO
NA USP POR UM PSICÓLOGO

 

“O HOMEM TORNA-SE
TUDO OU NADA, CONFORME A EDUCAÇÃO QUE RECEBE”

 

“Fingi ser gari
por 8 anos e vivi como um ser invisível”

 

Psicólogo varreu
as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da ‘invisibilidade pública’.
Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do
outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.

 

Plínio Delphino,
Diário de São Paulo.

 

O psicólogo social Fernando Braga da
Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da
Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os
trabalhadores braçais são ‘seres invisíveis, sem nome’. Em sua tese de mestrado,
pela USP, conseguiu comprovar a existência da ‘invisibilidade pública’, ou seja,
uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do
trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.

 

Braga trabalhava apenas meio período
como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas
garante que teve a maior lição de sua vida:

 

‘Descobri que um
simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida,
um sinal da própria existência’, explica o pesquisador.

 

O psicólogo sentiu na pele o que é
ser tratado como um objeto e não como um ser humano. ‘Professores que me
abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa
do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas,
seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão’,
diz.

 

No primeiro dia de trabalho paramos
pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto.
Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo
de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns
se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou
duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café
ali, na latinha suja e grudenta.

 

E como a gente estava num grupo
grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do
café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de
sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de
uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento
em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir
à cena, como se perguntasse: ‘E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa
caneca?’ E eu bebi.

 

Imediatamente a ansiedade parece que
evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

 

O que você sentiu na pele,
trabalhando como gari?

 

Uma vez, um dos garis me convidou
pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para
pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo
andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro
acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz
todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim.
O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da

cabeça era como se ardesse, como se
eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o
trabalho atordoado.

 

E depois de oito anos trabalhando
como gari? Isso mudou?

 

Fui me habituando a isso, assim como
eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via
um professor se aproximando – professor meu – até parava de varrer, porque ele
ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse
passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

 

E quando você volta para casa, para
seu mundo real?

 

Eu choro. É muito triste, porque, a
partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se
esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença
burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento
a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.
Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados
pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados
como se fossem uma ‘”COISA”!.

 

*Ser IGNORADO é uma das piores sensações que
existem na vida!

 

 

Respeito: passe
adiante!
 

Obesidade Mental

Obesidade
mental

 O prof.
Andrew Oitke, catedrático de Antropologia em Harvard, publicou em 2001 o seu
polêmico livro “Mental Obesity”, que revolucionou os campos da educação,
jornalismo e relações sociais em geral.

Nessa
obra introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior
problema da sociedade moderna.


apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de
gordura física  decorrente de uma alimentação desregrada.  É hora de refletir
sobre os nossos abusos no campo da informação e do conhecimento, que parecem
estar dando origem a problemas tão ou mais sérios do que a barriga proeminente.
"

Segundo
o autor,  "a nossa sociedade está mais sobrecarregada de preconceitos do que de
proteínas;  e mais intoxicada de lugares-comuns do que de hidratos de
carbono.

As
pessoas se viciaram em estereótipos, em juízos apressados, em ensinamentos
tacanhos e  em condenações precipitadas.

Todos
têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. "

"Os
‘cozinheiros’ desta magna “fast food” intelectual são os jornalistas, os
articulistas, os editorialistas,  os  romancistas, os falsos filósofos, os
autores de telenovelas e mais uma infinidade de outros  chamados ‘profissionais
da informação’".

"Os
telejornais e telenovelas estão se transformando nos hamburgers do espírito. As
revistas de variedades e os livros de venda fácil são os “donuts” da imaginação.
Os filmes se transformaram na pizza da sensatez."

"O
problema central está na família e na escola. "

"Qualquer pai responsável sabe que
os seus filhos ficarão doentes se abusarem dos doces e chocolates. Não se
entende, então, como  aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por
desenhos animados, por videojogos que se aperfeiçoam em estimular a violência e
por telenovelas que exploram, desmesuradamente, a sexualidade, estimulando, cada
vez com maior ênfase,  a  desagregação familiar, o homossexualismo, a
permissividade e, não raro, a promiscuidade.

Com uma
‘alimentação  intelectual’ tão carregada de adrenalina, romance, violência e
emoção, é possível supor  que esses jovens jamais conseguirão viver uma vida
saudável e regular".

Um dos
capítulos mais polêmicos e contundentes da obra, intitulado "Os abutres",
afirma:

"O
jornalista alimenta-se, hoje,  quase que exclusivamente de cadáveres de
reputações, de detritos de escândalos, e de restos mortais das realizações
humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e
manipular."

O texto
descreve como os "jornalistas e comunicadores em geral se desinteressam da
realidade  fervilhante, para se centrarem apenas no  lado polêmico e
chocante".

"Só a
parte morta e apodrecida ou distorcida da realidade é que chega aos
jornais."

"O
conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. 

Todos 
sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi
Kennedy.

Todos 
dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para quê ela
serve.

Todos
acham mais cômodo acreditar que Saddam é o mau e Mandella é o bom, mas ninguém
se preocupa em  questionar o que  lhes é empurrado goela abaixo como
"informação".

Todos
conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um
“cateto.”

Prossegue o
autor:

"Não
admira que, no meio da prosperidade e da abundância, as grandes realizações do
espírito humano estejam em decadência.

A
família é  contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura 
banalizou-se e  o folclore virou "mico". A arte é fútil, paradoxal ou 
doentia.

Floresce, entretanto,  a
pornografia, o cabotinismo (aquele que se elogia), a imitação, a sensaboria (sem
sabor) e o egoísmo.

Não se
trata nem de uma era em  decadência, nem de uma ‘idade das trevas’ e nem do fim 
da civilização, como tantos apregoam. "

"Trata-
se, na realidade, de uma questão de obesidade que vem sendo induzida,
sutilmente,  no espírito e na mente humana. O homem moderno está adiposo no
raciocínio, nos gostos e nos sentimentos.

O mundo
não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta
mental."

 

                              
(Autor desconhecido)

 

Permissão

"Peço permissão para chorar...Peço permissão para sentir
raiva...Solicito àqueles que julgam que me deixem em paz...Que por
gentileza coloquem suas próprias vidas no banco dos réus e vivam seus
próprios pecados. Encubam-se de matar seus próprios demônios e me
deixem matar os meus da forma que preferir.Saiam da hipocrisia, da
mesmice e da tentativa de definir a perfeição ideológica de se viver. E
que sejam felizes...Que procurem aprender com seus próprios erros e não
por meio daqueles que procuram acertar.Peço permissão para ser
autêntico seja lá o que isso signifique...E digo isso porque, se a
tentativa de ser feliz é algo errado, não sou humano com muito
prazer.Amenizem o sofrimento daqueles que estão sofrendo em vez de
procurar vivê-los também...Olhem à sua volta e procurem seus próprios
caminhos. Odeiem e amem com a mesma intensidade.Caminhem com suas
próprias pernas, sem que precisem usar outras vidas como uma bengala,
pois se ela em algum momento quebrar, cairão com o risco de não mais se
levantar.Que não tragam pena muito menos compaixão, mas que tragam
respeito...Que não duvidem da força alheia, pois se arrependerão."Eu
estou vestido com as roupas e as armas de São Jorge,Para que meus
inimigos tenham maõs e não me toquem,Para que meus inimigos tenham pés
e não me alcacem,Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam,E
nem mesmo o pensamento eles possam ter para me fazeram mal,Armas de
fogo meu corpo não alcançarão,Facas e espadas se quebrem sem o meu
corpo tocar,Cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar,Eu
estou vestido com as roupas e as armas de São Jorge.

Ser ou não Ser Normal?

NORMOSE:
 
Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal .
Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar.
O sujeito ‘normal’ é magro, alegre, belo ,sociável, e bem-sucedido. Quem não se ‘normaliza’ acaba adoecendo.
A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias ,depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento .A pergunta a ser feita é: quem espera o que de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas?
Eles não existem.
Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha ‘presença’ através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for todos.
Melhor se preocupar em ser você mesmo.
A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa.
Você precisa de quantos pares de sapato?
Comparecer em quantas festas por mês?
Pesar quantos quilos até o verão chegar?
Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias. Um pouco de auto-estima basta.
Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu ‘normal’ e jogaram fora a fórmula,não patentearam, não passaram adiante.
O normal de cada um tem que ser original.
Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros.
É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.
Eu não sou filiada, seguidora, fiel, ou discípula de nenhuma religião ou crença, mas simpatizo cada vez mais com quem nos ajuda a remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.
Martha Medeiros ( 05.08.07)-Jornal Zero Hora-P.Alegre-RS
 
"Podemos converter alguém pelo que somos, nunca pelo que dizemos." Huberto Rohden (1893 – 1981), filósofo e educador catarinense

 

Cronica da Loucura

Crônica da Loucura"

O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.

Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal. O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.
Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo.E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:
Na última quarta-feira, estávamos: (1)eu, (2)um crioulinho muito bem vestido, (3) um senhor de uns cinqüenta anos e (4)uma velha gorda.Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados. (2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para leva-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam ou conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.
(3 )E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno mansosempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas.Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual?Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.
(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.
Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista. Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera. Ele ri, ri muito, o meu psicanalista e diz: "(2) O Ditinho é o nosso office-boy. (3) O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades. (4) E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe. E (1) você, não vai ter alta tão cedo…"

AUTOR – Luis Fernando Verrissimo

Exreaído do Peregrino Místico

Que Sou Eu?

QUE SOU EU?

Pergunta: Nasci com um certo temperamento, um certo padrão psicológico
e físico, qualquer que seja a sua razão de ser. Esse padrão se torna o
principal fator da minha vida. Domina-me de maneira absoluta. Minha
liberdade, dentro do padrão, é muito limitada, visto que a maioria das
minhas reações e impulsos são rigidamente predeterminados. Posso
quebrar a tirania desse fator genético?

Krishnamurti: Expressando a mesma coisa, de outra maneira: Estou preso
num padrão social, hereditário, ambiental, ideológico, quer seja o
padrão dos meus pais, quer seja o da sociedade que me rodeia. Estou
tolhido por um padrão, e a questão se cinge em saber como o poderei
quebrar. Sou o resultado do meu pai e da minha mãe, biologicamente,
fisicamente. Sou o resultado das crenças, dos hábitos, dos temores dos
meus pais, os quais criaram a sociedade que me circunda. Meus pais,
por sua vez, foram o resultado dos seus pais, com o seu ambiente
social, físico, psicológico, e assim, retrospectivamente,
infinitamente, sem começo. Toda pessoa está presa dentro de um padrão
de existência, e eu sou o resultado de todo aquele passado – não
apenas o meu passado próprio, mas todo passado da humanidade. Sou,
afinal de contas, o filho de meu pai. Sou o resultado do passado,
modificado, em conjunção com o presente. Não estamos aventando a
questão da reencarnação, que é uma mera teoria. Estamos apenas
examinando o que realmente é. Minha existência é resultado do meu
passado, sendo o meu passado o resultado da existência de meu pai. Sou
produto do tempo, sou o passado atravessando o presente para se tornar
o futuro. Sou o resultado de ontem, que é o hoje a tornar-se amanhã.

Ora, posso sair desse processo do tempo, isto é, posso quebrar o
padrão que meu pai e eu mesmo criamos? Não sou diferente de meu pai;
sou meu pai, modificado. Isto é, exatamente, o que é. Mas, se começo a
traduzir o que é, se admito, por exemplo, a idéia de que sou a alma,
uma entidade espiritual, penetro então num domínio de todo diferente.
Não é isso que nos interessa, por ora – trataremos desta questão
quando entrarmos no problema relativo à alma, à continuidade, à
reencarnação. O problema, por enquanto, é: Posso eu, que sou
condicionado – não importa se pela esquerda ou pela direita – posso eu
sair desse condicionamento?!

Que é que vos condiciona? Que é que limita o pensamento? Que é que
cria o padrão em que estais presos? Se cesso de pensar, não existe
padrão algum. Isto é, eu sou o pensador, meus pensamentos são o
resultado de ontem; eu reajo a todo estímulo novo de acordo com o
padrão de ontem ou do segundo que acaba de passar; e posso eu, cujo
processo de pensamento é resultado de ontem, deixar de pensar em
termos de ontem? Estou apenas explicando o problema de modo diferente,
e vós mesmos encontrareis a sua solução num minuto. Meu pensamento
está condicionado, porque qualquer reação procedente do estado de
condicionado cria mais condicionamento; toda ação resultante do estado
de condicionamento é ação condicionada, que, por conseguinte, dá
continuidade ao estado condicionado. Logo, para dele sairmos,
precisamos estar livre do processo de pensar – mas não se deve
entender que eu esteja sugerindo isso como um meio de fuga. A maioria
das pessoas procura fugir porque a vida lhes é muito premente, muito
forte, muito exigente. Não estou propondo uma dessas fugas; estou
apenas a pedir-vos para que olheis para a verdade contida no problema.
Podeis ficar livres do processo de pensar? Pode ocorrer uma revolução
completa no pensar – não de acordo com o antigo padrão, o que seria
uma continuação do velho, com valores modificados – mas uma
transformação completa, uma quebra total do que é? Visto que sou o
produto de ontem, a liberdade, evidentemente, não está no mesmo nível
em que estou, o qual é uma mera continuação do ontem. Assim sendo, só
poderei sair do padrão quando houver a cessação do pensar.

Estamos apenas encarando o problema, e não buscando uma solução.
Porque a solução está contida no problema, e não fora dele. Se
compreenderdes o problema, encontrareis a solução nele próprio; mas
quando buscais uma solução e a não encontrais, ficais perturbado.
Estais à espera de que eu vos diga como se sai do padrão. Não vou
dizer-vos como se sai dele; nenhuma significação teria o dizê-lo,
porque em tal caso deixaríeis de acompanhar o problema. Queríeis que
eu vos dissesse o que deveríeis fazer, e por isso estais agora muito
perturbado. Não vos digo o que deveis fazer, uma vez que basta
compreender o problema para que ele desapareça. Quando vedes uma
serpente e sabeis que ela é venenosa, não existe problema algum,
existe? Sabeis como proceder – não tocá-la, afastar-se, ou fazer
qualquer outra coisa. Identicamente, é necessário que compreendais de
maneira completa este problema; mas não o estais fazendo. Eu o estou
fazendo no vosso lugar, e vós estais meramente a escutar-me.
Precisamos compreender o problema, e não perguntar como resolvê-lo.
Quando compreendeis o problema, ele mesmo vos revela a solução. Sois
como um colegial em exame. Ele não lê o problema cuidadosamente: quer
a solução; e por isso falha. Mas, se lê o problema com todo o vagar,
com todo o cuidado, considerando-o sob todos os aspectos, encontrará a
solução, ou, antes, a solução se lhe revelará.

De modo idêntico, vós estais encarando este problema com o desejo de
uma solução. Julgo que não percebeis a beleza nele contida.
Provavelmente estais cansados, senhores.

Voz do auditório: Não.

Krishnamurti: Sim, senhores, estais cansados. Eu vos direi porque.
Tudo isso é provavelmente muito novo para vós, nem o pode deixar de
ser, pois é uma maneira de toda nova de considerar; estais um pouco
perturbados, e quando estamos confusos ou perturbados, a nossa mente
divaga. Posso continuar; é minha tarefa; mas eu fiz isso, não falo
apenas. Enquanto, no vosso caso, senhores, se me permitis dizê-lo, vós
não estais estudando o problema. Eu o formulei por maneiras
diferentes, mas vós não quereis seguí-lo. Estou simplesmente apontando
o que é, – o problema. Mas não estais interessados em estudar o que é.
Estais esperando pelo resultado, ao passo que eu não tenho interesse
pelo resultado.

Eu quero a coisa como ela é – por isso encontrei a solução.

Permiti-me, pois, tornar a pedir-vos que estudeis o problema, e que
não procureis uma solução. Vede, por favor, a importância que isso
tem: procurar uma resposta, uma solução, não significa compreender o
problema; e se não compreendeis o problema, não haverá solução para
ele. O problema está aqui, e vós procurais a solução ali, o que
significa que desejais uma solução conveniente, lisonjeira. Mas se
encarardes o problema com todo o vosso cuidado, aplicando-lhe toda a
vossa inteligência, percebereis, então, a sua beleza, e o resultado é
maravilhoso.

O problema, pois, consiste no seguinte: meu pensamento está
condicionado, fixado num padrão; e a qualquer estímulo, que é sempre
novo, o meu pensamento só pode reagir de acordo com o seu
condicionamento, transformando o novo no velho, modificado. Desta
maneira, o meu pensamento nunca pode ser livre. Meu pensamento, que é
produto do ontem, só é capaz de reagir nas mesmas condições de ontem,
e quando ele indaga "Como posso passar além?" está fazendo uma
pergunta errônea. Porque, quando o pensamento tenta superar o seu
próprio condicionamento, dá continuidade a si mesmo, sob forma
modificada. Por conseqüência, há falsidade nessa pergunta. Só há
liberdade quando não existe condicionamento; mas para que haja
liberdade, deve o pensamento ficar cônscio da sua condição, e não
tentar tornar-se diferente do que é. Se o pensamento diz: "Preciso
libertar-me do meu condicionamento", nunca o conseguirá; pois, o que
quer que faça é sempre a sua própria rede, prolongada ou modificada. O
pensamento só pode fazer uma coisa para ser livre: cessar. Sem dúvida,
sempre que o pensamento está ativo, está condicionado, é continuidade,
modificada por uma reação condicionada. Por esse caminho não
encontraremos saída alguma do nosso condicionamento. Por conseguinte,
só existe um caminho, o qual é vertical, o qual é direto: cessar o
pensamento.

Mas, pode o pensamento cessar? Que é pensar? Que entendemos por
pensar? Entendemos por pensar a reação da memória. Estou-me
expressando por maneira muito simples. Não desejo complicar o
problema, já de si mesmo muito complexo. Pensar é reação da memória; e
que é memória? Memória é o resíduo da experiência. Isto é, quando se
nos apresenta um estímulo, o pensamento de ontem, que é memória, reage
a esse estímulo, e por conseguinte esse estímulo não é compreendido
perfeitamente, porém interpretado através da cortina de ontem. Assim,
pois, aquilo que não é compreendido deixa um vestígio, a que chamamos
memória. Já não notastes que, quando compreendestes alguma coisa,
quando esgotastes uma conversa, quando ela ficou terminada, não resta
vestígio algum? É só o ato incompleto, quer verbal, quer físico, que
deixa vestígio. A reação desse vestígio, que é memória, chama-se
pensar. Ora, pode haver um estado no qual não existe o ontem, isto é,
pode haver um estado em que não haja tempo, em que não haja pensamento
que seja o produto do ontem? O pensamento condicionado, que procura
modificar ou transformar a si próprio, apenas continua o estado
condicionado. Isso é bastante óbvio. Pensar é reação da memória, o que
também é bastante óbvio. E a memória é o produto da imperfeita
compreensão da experiência, do estímulo. A imperfeita compreensão da
existência é a causa da memória. Quando fazeis uma coisa
integralmente, com todo o vosso ser, não fica resíduo algum da
memória; mas quando o resíduo produz a reação, a essa reação chamamos
pensar. Esse pensar é condicionado, e esse condicionamento só pode
terminar quando o ato é completo. Enfrentais, então, todas as coisas
de maneira nova.

Como enfrentar as coisas de maneira nova? Como enfrentar a vida, a
existência por maneira nova, independente do tempo? Esta é uma nova
questão, não é verdade? É a questão que surge da presente pergunta. Ao
apresenta-vos esta nova questão, qual é a vossa reação? Se vossa
reação é também nova, estais então passivamente cônscio, alertado,
vigilante. Esse estado é atemporal. Nesse estado, em que enfrentais
todas as coisas com passiva vigilância, percebimento, não existe o
tempo; dá-se uma experiência direta, o estímulo é compreendido
diretamente; por conseguinte, há liberdade de pensar. E essa liberdade
é eterna; ela existe agora, e não amanhã.