Exibicionismo

Uma patologia: o exibicionismo

Há adultos que jamais superam a fase de exibicionismo próprio da infância e querem sempre fazer do olhar alheio um espelho de sua auto-imagem. A tendência ao exibicionismo é um sintoma de imaturidade.
O exibicionista não se suporta, julga-se inferiorizado e, por isso, necessita transformar o olhar alheio em lente de aumento capaz de ampliar sua auto-imagem. Ele só se vê no olhar do outro, pois a seus próprios olhos sente-se emocionalmente castrado. Daí seu medo da solidão, não apenas da solidão física, mas sobretudo da solidão simbólica, de quem se sente qual uma lâmpada apagada. O exibicionista precisa sentir-se sempre aceso, com sua luz projetada sobre os olhos alheios.
Na idade adulta, o exibicionismo se caracteriza pela busca incansável de bens compensatórios à castração emocional. A mansão, as jóias, o carro de luxo, o status, as funções profissionais ou políticas – são todos adereços para tentar encobrir uma personalidade nanica que não conseguiu afirmar-se diante de si mesma. Na esfera afetiva, o exibicionista dá mais valor aos predicados físicos do que ao compromisso objetivo e à intensidade do encontro subjetivo com o outro. Seu parceiro é alguém a ser exposto, visando a suscitar inveja alheia, como a criança que vai à escola com o relógio novo – não para saber as horas, mas para que todos sejam atraídos por seu objeto de ostentação.
No exercício de um cargo de direção, o exibicionista sente compulsiva necessidade de sempre comprovar seu poder, destacando-se pela arbitrariedade e transformando seus subalternos em meros instrumentos de sua soberba. Ele compraz-se em se exibir mesmo quando faz algum gesto magnânimo.
O exibicionista é, por desvio de caráter, um extrovertido, no sentido etimológico e etiológico do termo – inversão extrojetada. Ele exporta para os outros sua própria imagem, como se todos se sentissem mais agasalhados ao revestir-se dela.
Carente de si mesmo, ele quer sempre surpreender, ocupar todos os espaços, contemplar-se a si mesmo no altar erigido por seus gestos espetaculares. Não quer ser apenas contemplado e adorado pelos outros. Ele insiste em ser simultaneamente objeto venerado pelo olhar alheio e por seu próprio olhar. Nesse sentido, no centro de seus sonhos não estão os ideais que professa ou o amor que jura, mas a sua própria figura. Todas as suas motivações “altruísticas” têm início e fim em seu ego.
Auto-referente, o exibicionista é um eterno insatisfeito consigo mesmo e, portanto, perfeccionista. Como se um membro essencial de seu corpo lhe faltasse e fosse preciso recorrer a contínuas artimanhas para encobrir e compensar o aleijão. Por isso, ele está sempre procurando completar-se, no sentido mcluhaniano do termo, ou seja, dotando-se de equipamentos – velozes, potentes, avançados – que dilatem a extensão de seu corpo. Desse modo, o exibicionista compraz-se em suscitar a inveja de todos que o cercam e jamais suporta conviver com quem se mostra mais capaz do que ele. Nem admite a indiferença. Em seu universo, há lugar para um único sol, cercado de satélites sem luz própria.
O ostracismo é a morte do exibicionista. Tudo, menos o anonimato. Seu inferno é a clausura, a carência de bens ostentatórios, a redução do status ou a perda de poder. Ele não age regido por princípios. Sua palavra vale até esbarrar no pedestal que o sustenta. Entre a auto-imagem e a palavra, ele salva a primeira, pois sua relação com o mundo é preponderantemente estética, e não ética, como um ator que só acredita na força do personagem se a cenografia causar impacto.
O exibicionista jamais demonstra sinais de fraqueza, condescendência e tolerância. Revestido de suposta onipotência, ele se desculpabiliza de toda ação inescrupulosa, como se lhe coubesse a missão histórica de inovar os padrões morais. Por isso, não se envergonha de seus erros e nem se condói com o sofrimento alheio, pois está convencido de que os outros não mereceram a sorte de possuir, como ele, a estrela da exuberância ilimitada.
No convívio privado, o exibicionista não dialoga, impõe-se. Quando escuta é com a cabeça centrada em si mesmo e não nos argumentos do interlocutor. Quando fala, acredita mais na força simbólica do som de sua voz do que na lógica de seu raciocínio.
O que o exibicionista mais teme é enfrentar as situações-limite da vida. Para ele, doença, fracasso, falência e morte são insuportáveis e, com medo do sofrimento decorrente da decisão de assumi-las, ele se omite, como se o lado trágico da vida não lhe dissesse respeito. Ele foge psicologicamente quando surge, em seu caminho, alguma forma de limitação ou carência. É o que a psicanálise freudiana qualifica de negação. Banca a avestruz, enfiando a cabeça em seu próprio ego, como se a vida fosse sempre festa, jamais féretro. Mas como na vida a culpa que se contrai por omissão é incomparavelmente maior do que aquela advinda da transgressão, o exibicionista lida com seus eventuais sentimentos de culpa acionando o mecanismo de projeção de sua auto-imagem.
Diante da miséria, ostenta riqueza; frente à corrupção, arvora-se em paradigma moral; entre tantos famélicos, esbanja saúde; numa situação de fraqueza, sorri satisfeito; diante do sucesso alheio, apresenta-se como estrela guia iluminadora. Ele se oferece como referência catártica a todos que vivem na carência. Nele, tudo é completo e os carentes o miram como a criança ao Super-Homem que encarna suas fantasias onipotentes.
O exibicionista é, por caráter, detalhista. Do fio de cabelo fora do lugar ao quadro torto na parede, tudo o irrita quando não corresponde ao seu gosto, pois ele quer se ver na ordem circundante. O mundo é extensão de sua figura. E o caos, o seu inferno, porque desarruma o picadeiro no qual ele ocupa o centro.
Em suma, o exibicionista não se admite como um-entre-outros. Todos, queiram ou não, estão obrigados a contemplar a sua venerável figura – fonte de vida e de prazer… dele, corrente aprisionadora para os que se deixam subjugar, espada mortal para aqueles que ousam olhar em outras direções.

* Tanto barulho para nada! (título de uma comédia de William Shakespeare)

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