O Significado Psicológico da Perda dos Dentes

Significado Psicológico da Perda dos Dentes

 

Dr. Adriano Caló

 

Desde a nossa primeira infância, os dentes e a boca possuem níveis psicológicos de importância bastante acentuados, pois é pela boca que a criança recebe suas primeiras manifestações de carinho, ao sugar o leite da mãe. Freud identificou a chamada “fase oral”, na qual a boca seria o local de realização das trocas do bebê com o mundo: pela boca a criança garante sua sobrevivência, a partir do momento em que se alimenta. Pela boca a criança entende que está recebendo carinho e amor. E é exatamente nesta fase que o psiquismo humano se inicia. Portanto, a importância psíquica da cavidade bucal se inicia nos primeiros momentos da vida das pessoas.

 

Através da alimentação, a criança “incorpora” os alimentos. Quando nascem os primeiros dentes, esta “incorporação” passa a ser intermediada e aprimorada pelos dentes. A moderna psicologia atribui a esta fase, também, grande importância, que inclui a dor do nascimento dos primeiros dentinhos, e a desmama obrigatória, que é entendida pela criança como uma separação da mãe. A Psicologia define estas duas fases como a da sucção (antes do aparecimento dos primeiros dentes) e a chamada “etapa oral sádica” (que corresponde ao aparecimento dos primeiros dentes). O prazer de sugar passa a ser substituído pelo prazer de morder. Morder passa a significar, também, uma forma de agressão e defesa. Significa saciar a fome, sentir prazer, causar dano ao mundo exterior, poder, independência.

 

É claro que se o nascimento dos dentes produz tantas e tão importantes alterações psíquicas, a perda dos dentes também implicará em outras tantas conseqüências emocionais para as pessoas.

 

A nossa sociedade e a nossa cultura fazem com que a boca, os dentes e o sorriso passem a ter um significado de aceitação social. Sorrir é importante: o sorriso anuncia bem-estar, alegria, segurança, auto-satisfação em relação ao outro, boa acolhida à aproximação. Mas um sorriso bonito implica em mostrar os dentes. E nossa cultura define como sendo bonitos os dentes bem brancos e perfeitamente alinhados. A mídia reforça este conceito o tempo todo. Assim, uma dentição bonita e perfeita, passou a ser de vital importância para a aceitação social das pessoas. Existem trabalhos científicos comprovando que a perda de dentes chega a interferir até mesmo na forma de pensar e agir de muitos pacientes.

 

A imagem que cada um faz de si próprio, é sempre associada à imagem que cada um tem de seu corpo. Isso significa que quanto mais satisfeita uma pessoa estiver com o espelho, maior será sua auto-estima.  Como todos sabemos, a auto-estima é muito importante para que as pessoas se sintam felizes e realizadas.

 

A importância da aparência já foi definida num texto do séc. XIX que dizia que “as partes visíveis do corpo deveriam ser inofensivas à vista e agradáveis ao olfato” e que “uma aparência limpa era garantia de probidade moral e de posição social”. Sabemos que isto não é verdade, mas é assim que a sociedade interpreta os fatos. Uma pesquisa de 1966 concluiu que dentre os fatores que mais perturbam as pessoas está a possibilidade de ter mau hálito e de exibir, aos outros, dentes com resíduos de alimentos.

 

É obvio que a aparência é apenas uma parte da pessoa. Outros aspectos são sabidamente tão ou mais importantes: todo mundo gosta de pensar que é relativamente culto, inteligente, saudável, simpático, alegre. Todos sabemos da importância que tem a posição social das pessoas. Posição esta mostrada aos outros por bens materiais como, por exemplo, uma bela roupa, um bom carro, uma casa ampla e bem situada, um bom cargo em uma boa empresa. Tudo isso gera segurança e confiança. Sabe-se que se é socialmente bem aceito.

 

Num trabalho publicado pela Revista da Associação Paulista d Cirurgiões Dentistas, em 1998, vários pacientes que haviam extraído um ou mais dentes, foram entrevistados para saber das conseqüências psicológicas destas extrações. Os pesquisadores ouviram frases como: “quando a gente sorri, os dentes vão na frente”, “os dentes completam a personalidade”, “ninguém quer beijar um desdentado”, “sem meus dentes, eu me sentia um zero, não era capaz de nada”, “fiquei diferente. Era como se fosse outra pessoa, uma pessoa muito pior, amputada, incompleta, incapaz”, “quase morria de vergonha, não queria que ninguém me visse. Nem eu queria me olhar, vivia fugindo do espelho para não ver aquele estrago”.

 

Pessoalmente, entendo que esta postura seja exagerada e até mesmo absurda. Pensamos que um ser humano jamais deva ser julgado pela sua aparência exterior. Porém, infelizmente, é assim que a sociedade, de um modo geral, entende as coisas. E para nos sentirmos integrados nesta sociedade, o que é sabidamente importante, devemos obedecer às regras impostas por ela. E uma destas regras é: a aparência é fundamental.

 

Um dos dentistas que participou da pesquisa fez o seguinte relato: “ficar sem os dentes parece levar a comportamentos infantis. O paciente fica desamparado, silencioso, tenso e até imóvel; toda a sua expressão parece pedir desculpas por não ter dentes. Quando a prótese é colocada, o paciente readquire a confiança, parece renascer”.

 

A Odontologia atual conta com muitos recursos para ajudar àqueles que tenham perdido um ou mais dentes: existem próteses feitas de materiais que copiam a natureza de forma quase que perfeita. Existem os implantes, que evoluíram muito, e têm resolvido, de forma brilhante, muitas das perdas dentárias. Existem as técnicas de clareamento, que são altamente eficazes. As restaurações, atualmente, são todas da cor dos dentes, proporcionando resultados que realmente satisfazem às expectativas dos pacientes mais exigentes. As técnicas usadas pela Odontologia moderna são muito mais rápidas, com níveis de dor imensamente menores que aquelas adotadas até a alguns anos atrás, e a um custo significativamente inferior.

 

O dentista, hoje, está totalmente consciente da importância psicológica do sorriso e sabe entender os anseios e expectativas dos pacientes. A Psicologia passou a ser matéria ministrada nas faculdades de Odontologia.

 

As técnicas preventivas, que devem ser adotadas e ensinadas aos pacientes pelos profissionais, são altamente eficazes, reduzindo as perdas dentárias a índices incrivelmente pequenos. Mas para isto, é preciso que se façam visitas regulares ao dentista. Um período de seis meses entre uma consulta e outra é o ideal.

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