Arquivo | agosto 2008

Ser ou não Ser Normal?

NORMOSE:
 
Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal .
Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar.
O sujeito ‘normal’ é magro, alegre, belo ,sociável, e bem-sucedido. Quem não se ‘normaliza’ acaba adoecendo.
A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias ,depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento .A pergunta a ser feita é: quem espera o que de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas?
Eles não existem.
Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha ‘presença’ através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for todos.
Melhor se preocupar em ser você mesmo.
A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa.
Você precisa de quantos pares de sapato?
Comparecer em quantas festas por mês?
Pesar quantos quilos até o verão chegar?
Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias. Um pouco de auto-estima basta.
Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu ‘normal’ e jogaram fora a fórmula,não patentearam, não passaram adiante.
O normal de cada um tem que ser original.
Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros.
É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.
Eu não sou filiada, seguidora, fiel, ou discípula de nenhuma religião ou crença, mas simpatizo cada vez mais com quem nos ajuda a remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.
Martha Medeiros ( 05.08.07)-Jornal Zero Hora-P.Alegre-RS
 
"Podemos converter alguém pelo que somos, nunca pelo que dizemos." Huberto Rohden (1893 – 1981), filósofo e educador catarinense

 

Reflexões Espirituais

 

REFLEXÕES ESPIRITUAIS – TOQUES DOS INICIADOS

          (Na Balada Extrafísica com os mentores Espirituais)

 

          – Por Wagner Borges –

 

No centro da noite, escuto um chamado sutil.

          Vêm do alto e entra pelo topo de minha cabeça.

          E vai direto ao meu peito…

          É silencioso, mas eu o escuto com o coração.

          É portentoso e, ao mesmo tempo, simples.

          Relaxo a mente e as emoções, e fico quietinho.

          Então, de espírito a espírito, capto os toques dos Iniciados:

 

          1. Violência é doença! A cura é a meditação serena.

          2. Quem semear, colherá!

          3. Com trevas no coração, como alcançar o Samadhi? (1)

          4. Objetivos levianos sempre atraem realizações tacanhas.

          5. Carregar a luz em si mesmo não é tarefa para fracos de espírito.

          6. Coração escuro atrai situações e entidades trevosas.

          7. Espiritualidade é ação. Não é discurso. É estado de consciência.

          8. Reunião espiritual não é ponto de encontro social!

          9. A quem muito é dado, muito será cobrado. Conhecimento demanda responsabilidade.

          11. Quem quer voar espiritualmente, que largue as correntes do medo.

          12. Quem quer ir para o Alto, que se deite no leito pensando no Alto!

          13. Semelhante atrai semelhante. Quem procura, acha!

          14. Quem esquece a lanterna, perde-se na escuridão da noite.

          15. Quem esquece o discernimento, tromba feio com as trevas.

          16. Muitos se deitam em leitos com lençóis brancos e macios, porém, com a aura (2) suja e com presenças invisíveis muito escuras agarradas neles.

          17. Se a prece é de coração, tudo que é trevoso se afasta.

          18. Aparência externa engana muito. Mas as energias revelam o que cada um é. Na luz, o real sempre aparece.

          19. Anda na beira do abismo quem se deixa levar pela raiva.

          20. O Invisível é a origem de todo visível. Quem ama, sabe!

          21. Liberdade não é fazer tudo que se quer. É saber viver em equilíbrio e bem consigo mesmo.

          22. Quem é da luz, respeita as trevas. Mas não se mete com elas.

          23. Grandes enganadores sempre pagam um preço alto: também acabam enganando a si mesmos, até mesmo pela força do hábito.

          24. Bons estudantes espirituais não fazem por menos: jamais se deitam sem erguer os pensamentos ao Alto. E, quando acordam, fazem o mesmo.

          25. O homem não é poderoso para deter a corrente do tempo e o desgaste natural do seu veículo físico. Então, de onde vem sua arrogância?

          26. Quem pondera, descobre o essencial: é só o Supremo que sabe o tempo certo de cada um. O Poder real é o d’Ele.

          27. As grandes provas estão nas coisas simples da vida. E os grandes mestres são simples, como a vida…

          28. Bons estudantes espirituais não fazem por menos: não reclamam das provas do caminho. E tiram lições delas, para seguir em frente com mais sabedoria…

          29. Se alguém tiver ódio de alguém, não é da luz, pois seu coração escuro o liga a outras coisas trevosas.

          30. Quem bate, é fraco de caráter. Forte é quem ama e compreende.

         

          No centro da noite, eu medito e aprendo.

Sondo o meu coração e pondero.

          E sinto várias presenças invisíveis, serenas e amigas, me saudando.

          E, por incrível que pareça, elas me agradecem por eu ter escrito.

          E eu também agradeço a elas, por me passarem reflexões tão legais.

          Então, elas e eu agradecemos juntos ao Supremo, por tudo.

          E a noite se ilumina, na graça do Todo que está em tudo.

         

          P.S.: Às vezes, quem está no meio da multidão agitada, está mais só do que imagina. E quem aparentemente está só, mas na Luz, está mais acompanhado do que pensa, pois sente-se ligado a miríades de seres luminosos pelo espaço infinito…

          Na noite das baladas, onde homens e mulheres e espíritos infelizes se engalfinham energeticamente, sedentos de sensações alienantes na atmosfera escura da grande metrópole de aço e concreto, onde o Grande Arquiteto Do Universo também me colocou para viver, aprender e trabalhar, eu escutei um chamado sutil para uma outra balada, em espírito.

          E minhas companhias de balada consciencial são o sábio Sanat Khum Maat e o grupo extrafísico dos Iniciados (3). É com eles que vou viajar espiritualmente (4) daqui a pouco, logo que deitar a carcaça no leito.

          E, graças a Deus, não estão limpos apenas os lençóis da cama, mas a aura também (5). E eu vou me deitar pensando no Alto, como deve ser…

 

          (Esses escritos são dedicados aos meus amigos Victor Hugo França, Maísa Intelisano, Fernanda Lopes, Marisa, do espaço Origens, Luis Fernando Mingrone, o Enki, Ana Lahis Tano, e Patrícia, que são trabalhadores da luz e companheiros firmes de fé e de jornada – e a Vivian, linda moça, com coração e mãos de luz, a quem agradeço pela luz rosada e pelo carinho enviados a mim.)

          De coração a coração, em espírito e verdade, que a balada dos mentores espirituais possa iluminar suas consciências e também fortalecê-los na jornada, humana e espiritual.

 

          Paz e Luz. São Paulo, 09 de agosto de 2008.

 

Cronica da Loucura

Crônica da Loucura"

O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.

Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal. O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.
Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo.E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:
Na última quarta-feira, estávamos: (1)eu, (2)um crioulinho muito bem vestido, (3) um senhor de uns cinqüenta anos e (4)uma velha gorda.Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados. (2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para leva-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam ou conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.
(3 )E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno mansosempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas.Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual?Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.
(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.
Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista. Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera. Ele ri, ri muito, o meu psicanalista e diz: "(2) O Ditinho é o nosso office-boy. (3) O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades. (4) E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe. E (1) você, não vai ter alta tão cedo…"

AUTOR – Luis Fernando Verrissimo

Exreaído do Peregrino Místico

Que Sou Eu?

QUE SOU EU?

Pergunta: Nasci com um certo temperamento, um certo padrão psicológico
e físico, qualquer que seja a sua razão de ser. Esse padrão se torna o
principal fator da minha vida. Domina-me de maneira absoluta. Minha
liberdade, dentro do padrão, é muito limitada, visto que a maioria das
minhas reações e impulsos são rigidamente predeterminados. Posso
quebrar a tirania desse fator genético?

Krishnamurti: Expressando a mesma coisa, de outra maneira: Estou preso
num padrão social, hereditário, ambiental, ideológico, quer seja o
padrão dos meus pais, quer seja o da sociedade que me rodeia. Estou
tolhido por um padrão, e a questão se cinge em saber como o poderei
quebrar. Sou o resultado do meu pai e da minha mãe, biologicamente,
fisicamente. Sou o resultado das crenças, dos hábitos, dos temores dos
meus pais, os quais criaram a sociedade que me circunda. Meus pais,
por sua vez, foram o resultado dos seus pais, com o seu ambiente
social, físico, psicológico, e assim, retrospectivamente,
infinitamente, sem começo. Toda pessoa está presa dentro de um padrão
de existência, e eu sou o resultado de todo aquele passado – não
apenas o meu passado próprio, mas todo passado da humanidade. Sou,
afinal de contas, o filho de meu pai. Sou o resultado do passado,
modificado, em conjunção com o presente. Não estamos aventando a
questão da reencarnação, que é uma mera teoria. Estamos apenas
examinando o que realmente é. Minha existência é resultado do meu
passado, sendo o meu passado o resultado da existência de meu pai. Sou
produto do tempo, sou o passado atravessando o presente para se tornar
o futuro. Sou o resultado de ontem, que é o hoje a tornar-se amanhã.

Ora, posso sair desse processo do tempo, isto é, posso quebrar o
padrão que meu pai e eu mesmo criamos? Não sou diferente de meu pai;
sou meu pai, modificado. Isto é, exatamente, o que é. Mas, se começo a
traduzir o que é, se admito, por exemplo, a idéia de que sou a alma,
uma entidade espiritual, penetro então num domínio de todo diferente.
Não é isso que nos interessa, por ora – trataremos desta questão
quando entrarmos no problema relativo à alma, à continuidade, à
reencarnação. O problema, por enquanto, é: Posso eu, que sou
condicionado – não importa se pela esquerda ou pela direita – posso eu
sair desse condicionamento?!

Que é que vos condiciona? Que é que limita o pensamento? Que é que
cria o padrão em que estais presos? Se cesso de pensar, não existe
padrão algum. Isto é, eu sou o pensador, meus pensamentos são o
resultado de ontem; eu reajo a todo estímulo novo de acordo com o
padrão de ontem ou do segundo que acaba de passar; e posso eu, cujo
processo de pensamento é resultado de ontem, deixar de pensar em
termos de ontem? Estou apenas explicando o problema de modo diferente,
e vós mesmos encontrareis a sua solução num minuto. Meu pensamento
está condicionado, porque qualquer reação procedente do estado de
condicionado cria mais condicionamento; toda ação resultante do estado
de condicionamento é ação condicionada, que, por conseguinte, dá
continuidade ao estado condicionado. Logo, para dele sairmos,
precisamos estar livre do processo de pensar – mas não se deve
entender que eu esteja sugerindo isso como um meio de fuga. A maioria
das pessoas procura fugir porque a vida lhes é muito premente, muito
forte, muito exigente. Não estou propondo uma dessas fugas; estou
apenas a pedir-vos para que olheis para a verdade contida no problema.
Podeis ficar livres do processo de pensar? Pode ocorrer uma revolução
completa no pensar – não de acordo com o antigo padrão, o que seria
uma continuação do velho, com valores modificados – mas uma
transformação completa, uma quebra total do que é? Visto que sou o
produto de ontem, a liberdade, evidentemente, não está no mesmo nível
em que estou, o qual é uma mera continuação do ontem. Assim sendo, só
poderei sair do padrão quando houver a cessação do pensar.

Estamos apenas encarando o problema, e não buscando uma solução.
Porque a solução está contida no problema, e não fora dele. Se
compreenderdes o problema, encontrareis a solução nele próprio; mas
quando buscais uma solução e a não encontrais, ficais perturbado.
Estais à espera de que eu vos diga como se sai do padrão. Não vou
dizer-vos como se sai dele; nenhuma significação teria o dizê-lo,
porque em tal caso deixaríeis de acompanhar o problema. Queríeis que
eu vos dissesse o que deveríeis fazer, e por isso estais agora muito
perturbado. Não vos digo o que deveis fazer, uma vez que basta
compreender o problema para que ele desapareça. Quando vedes uma
serpente e sabeis que ela é venenosa, não existe problema algum,
existe? Sabeis como proceder – não tocá-la, afastar-se, ou fazer
qualquer outra coisa. Identicamente, é necessário que compreendais de
maneira completa este problema; mas não o estais fazendo. Eu o estou
fazendo no vosso lugar, e vós estais meramente a escutar-me.
Precisamos compreender o problema, e não perguntar como resolvê-lo.
Quando compreendeis o problema, ele mesmo vos revela a solução. Sois
como um colegial em exame. Ele não lê o problema cuidadosamente: quer
a solução; e por isso falha. Mas, se lê o problema com todo o vagar,
com todo o cuidado, considerando-o sob todos os aspectos, encontrará a
solução, ou, antes, a solução se lhe revelará.

De modo idêntico, vós estais encarando este problema com o desejo de
uma solução. Julgo que não percebeis a beleza nele contida.
Provavelmente estais cansados, senhores.

Voz do auditório: Não.

Krishnamurti: Sim, senhores, estais cansados. Eu vos direi porque.
Tudo isso é provavelmente muito novo para vós, nem o pode deixar de
ser, pois é uma maneira de toda nova de considerar; estais um pouco
perturbados, e quando estamos confusos ou perturbados, a nossa mente
divaga. Posso continuar; é minha tarefa; mas eu fiz isso, não falo
apenas. Enquanto, no vosso caso, senhores, se me permitis dizê-lo, vós
não estais estudando o problema. Eu o formulei por maneiras
diferentes, mas vós não quereis seguí-lo. Estou simplesmente apontando
o que é, – o problema. Mas não estais interessados em estudar o que é.
Estais esperando pelo resultado, ao passo que eu não tenho interesse
pelo resultado.

Eu quero a coisa como ela é – por isso encontrei a solução.

Permiti-me, pois, tornar a pedir-vos que estudeis o problema, e que
não procureis uma solução. Vede, por favor, a importância que isso
tem: procurar uma resposta, uma solução, não significa compreender o
problema; e se não compreendeis o problema, não haverá solução para
ele. O problema está aqui, e vós procurais a solução ali, o que
significa que desejais uma solução conveniente, lisonjeira. Mas se
encarardes o problema com todo o vosso cuidado, aplicando-lhe toda a
vossa inteligência, percebereis, então, a sua beleza, e o resultado é
maravilhoso.

O problema, pois, consiste no seguinte: meu pensamento está
condicionado, fixado num padrão; e a qualquer estímulo, que é sempre
novo, o meu pensamento só pode reagir de acordo com o seu
condicionamento, transformando o novo no velho, modificado. Desta
maneira, o meu pensamento nunca pode ser livre. Meu pensamento, que é
produto do ontem, só é capaz de reagir nas mesmas condições de ontem,
e quando ele indaga "Como posso passar além?" está fazendo uma
pergunta errônea. Porque, quando o pensamento tenta superar o seu
próprio condicionamento, dá continuidade a si mesmo, sob forma
modificada. Por conseqüência, há falsidade nessa pergunta. Só há
liberdade quando não existe condicionamento; mas para que haja
liberdade, deve o pensamento ficar cônscio da sua condição, e não
tentar tornar-se diferente do que é. Se o pensamento diz: "Preciso
libertar-me do meu condicionamento", nunca o conseguirá; pois, o que
quer que faça é sempre a sua própria rede, prolongada ou modificada. O
pensamento só pode fazer uma coisa para ser livre: cessar. Sem dúvida,
sempre que o pensamento está ativo, está condicionado, é continuidade,
modificada por uma reação condicionada. Por esse caminho não
encontraremos saída alguma do nosso condicionamento. Por conseguinte,
só existe um caminho, o qual é vertical, o qual é direto: cessar o
pensamento.

Mas, pode o pensamento cessar? Que é pensar? Que entendemos por
pensar? Entendemos por pensar a reação da memória. Estou-me
expressando por maneira muito simples. Não desejo complicar o
problema, já de si mesmo muito complexo. Pensar é reação da memória; e
que é memória? Memória é o resíduo da experiência. Isto é, quando se
nos apresenta um estímulo, o pensamento de ontem, que é memória, reage
a esse estímulo, e por conseguinte esse estímulo não é compreendido
perfeitamente, porém interpretado através da cortina de ontem. Assim,
pois, aquilo que não é compreendido deixa um vestígio, a que chamamos
memória. Já não notastes que, quando compreendestes alguma coisa,
quando esgotastes uma conversa, quando ela ficou terminada, não resta
vestígio algum? É só o ato incompleto, quer verbal, quer físico, que
deixa vestígio. A reação desse vestígio, que é memória, chama-se
pensar. Ora, pode haver um estado no qual não existe o ontem, isto é,
pode haver um estado em que não haja tempo, em que não haja pensamento
que seja o produto do ontem? O pensamento condicionado, que procura
modificar ou transformar a si próprio, apenas continua o estado
condicionado. Isso é bastante óbvio. Pensar é reação da memória, o que
também é bastante óbvio. E a memória é o produto da imperfeita
compreensão da experiência, do estímulo. A imperfeita compreensão da
existência é a causa da memória. Quando fazeis uma coisa
integralmente, com todo o vosso ser, não fica resíduo algum da
memória; mas quando o resíduo produz a reação, a essa reação chamamos
pensar. Esse pensar é condicionado, e esse condicionamento só pode
terminar quando o ato é completo. Enfrentais, então, todas as coisas
de maneira nova.

Como enfrentar as coisas de maneira nova? Como enfrentar a vida, a
existência por maneira nova, independente do tempo? Esta é uma nova
questão, não é verdade? É a questão que surge da presente pergunta. Ao
apresenta-vos esta nova questão, qual é a vossa reação? Se vossa
reação é também nova, estais então passivamente cônscio, alertado,
vigilante. Esse estado é atemporal. Nesse estado, em que enfrentais
todas as coisas com passiva vigilância, percebimento, não existe o
tempo; dá-se uma experiência direta, o estímulo é compreendido
diretamente; por conseguinte, há liberdade de pensar. E essa liberdade
é eterna; ela existe agora, e não amanhã.